“Um irmão pecou contra mim na igreja. Como resolver? Posso entrar na Justiça?”

Uma área em que muitas igrejas precisam estar presentes de forma mais efetiva é na capacidade de lidar com as situações de conflito que aparecem entre as pessoas na própria igreja, incluindo aqui os próprios pastores. Veja que muitos se perguntam o que devem fazer quando um irmão age de forma errada, quando um irmão peca contra você, seja levantando um falso testemunho ou algo semelhante. O que devem fazer? Devem falar para os outros irmãos? Devem falar com o pastor? Enfim, qual seria a orientação da Bíblia em situações como essas?

Antes de tudo, sabemos que o melhor mesmo é ser capaz de evitar conflitos, mas também sabemos que nem sempre é possível evitar que outras pessoas façam coisas contra nós no seio da igreja, não é mesmo? Por essa razão, temos de conhecer o que a Palavra de Deus nos diz sobre como lidar com essa situação. A passagem mais importante sobre este assunto, segundo penso, é a seguinte:

Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão.

Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que ‘qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas’.

Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano.

(Mateus 18:15-17)

Nessa passagem, você deve ter bem claro em mente que o que ela diz se aplica aos conflitos entre irmãos na igreja, ou seja, entre pessoas que são cristãs. A passagem traz a maneira que devemos agir, que é diferente da maneira que a sociedade em regra age. Na sociedade, quando há algum conflito, logo se sugere a vingança ou a difamação de quem foi o agressor. Na igreja, não é assim.

O primeiro passo que as Escrituras estabelecem é o seguinte:

  • Primeiro Passo

Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. (Mateus 18:15)

Quando alguém fizer algo errado contra você e já houver um conflito estabelecido, o que você deve fazer é ir conversar sozinho com a pessoa e, com educação e humildade, expor os motivos por que você acha que ela errou em ter agido daquela forma.

Enquanto a Bíblia diz “vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro”, ela quer dizer, você sabe o que muitas pessoas fazem quando se sentem agredidas por outra na igreja? Ela vão logo contar para outros, espalhar o que aconteceu, tentar angariar apoio. Quando a pessoa age assim, ela está dificultando em muito a possibilidade de solução do conflito.

Quando se vai sozinho falar com aquele que você acha que o agrediu, há uma grande chance de reconciliação. Ora, caso o outro se convença que agiu de forma errada, você ganhará o seu irmão. Ou seja, com o perdão estabelecido e a relação reconstruída vocês passarão a andar novamente em plena harmonia, que é o que Cristo estabelece como padrão a ser buscado entre os seus seguidores.

Gostaria de enfatizar que você deve ir com humildade. Não é para ir conversar com ele na posição de superioridade, o que só geraria mais conflito. Ir na posição de superioridade é ir em busca de vingança e não da reconciliação. Se você tem dúvidas sobre o que as Escrituras dizem sobre a sua postura para não gerar mais conflitos, leia o texto da semana passada sobre este assunto.

Mas, caso não tenha havido possibilidade de reconciliação, mesmo que você tenha ido com a postura correta, sem ter maliciosamente espalhado para as outras pessoas o que o irmão fez? Bom, neste caso devemos passar para o segundo passo.

  • Segundo Passo

Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que ‘qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas’. (Mateus 18:16)

Caso o primeiro passo não resolva, as Escrituras estabelecem que você deverá agora tornar público o problema para que a solução seja alcançada com a ajuda de outros. Mas o que devemos entender por tornar público? Mais uma vez, não é sair falando para todo mundo, mas sim buscar testemunhas para uma próxima tentativa.

Na igreja, para que possamos ter algo a dizer sobre a conduta errada de outra pessoa, é preciso duas ou mais testemunhas.

Uma só testemunha não é suficiente para condenar alguém de algum crime ou delito. Qualquer acusação precisa ser confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas. (Deuteronômio 19:1)

Assim, o segundo passo é chamar duas ou mais pessoas que sejam de confiança e reconhecidamente sérias e peça que elas o acompanhem na próxima conversa com o irmão que o agrediu. Ali, você terá testemunhas, de maneira que o que será dito sobre o ocorrido terá o crivo dessas pessoas.

Veja que esta regra das testemunhas talvez seja uma das mais ignoradas nas igrejas e, talvez por isso, muitos problemas ocorram sem que haja solução.

Caso mesmo na conversa com a presença das testemunhas, o problema não se resolva, será preciso agora levar o caso para a liderança da igreja, conforme nos diz o passo três, que veremos a seguir.

  • Terceiro Passo

Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano. (Mateus 18:17)

As Escrituras estabelecem aqui que caso os primeiros dois passos não funcionem, é preciso levar a questão para a igreja. Mas, o que quer dizer isso? Bom, depende da organização da sua igreja. Uma boa igreja sempre terá em sua liderança uma pessoa com quem você se sinta confortável para colocar os seus problemas e a quem você tenha dado o direito de falar em sua vida.

Essa pessoa, que em regra é o pastor, deverá ser preparado para chamar o irmão que o agrediu para tentar levá-lo ao arrependimento e, portanto, à reconciliação com você. Caso, mesmo assim, isso não seja possível, as Escrituras são duras o suficiente para dizer que a pessoa que, após os três passos apresentados, não quis se reconciliar, deve ser tratada como alguém que não age como cristão.

Caso o problema não tenha se resolvido de nenhuma dessas formas, uma pergunta que sempre aparece é esta: pode então o cristão tentar ir à justiça para resolver o problema?

Aqui está a importância do que Mateus registra (Mateus 18:17), quando diz que o cristão que se recusou a resolver o problema quando abordado isoladamente, quando abordado na presença de pelo menos duas testemunhas idôneas e também quando chamado pela liderança da igreja, deve ser tratado como pagão, ou seja, como alguém que não age de acordo com os ensinamentos de Cristo.

A questão é que o apóstolo Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 6:1-11) censura o litígio entre irmãos, ou seja, ele estabelece que um irmão não deve entrar na justiça contra outro irmão em Cristo. Quando vemos o que está em Mateus 18:17, vemos que o que diz Paulo em 1 Coríntios 6:1-11 não se aplica ao cristão que não quis se reconciliar por meio dos passos que apresentamos, pois essa pessoa deve ser tratada como pagão.

É claro que as Escrituras não indicam que se deve processar judicialmente o irmão que não quis se reconciliar, mas não condena isso caso os passos aqui apresentados tenham sido rigorosamente observados.

Por fim, há algo que nunca devemos nos esquecer: é que quando temos a certeza de que agirmos corretamente, temos a certeza de que será Deus que nos justificará. Apesar do fato de que as Escrituras, na situação específica narrada aqui, não condenam que o cristão vá à justiça em busca de reparação contra aquele que agiu de forma errada contra ele, nunca devemos perder a convicção de que é Deus quem nos justifica (Romanos 8:33). Somente isso, em situações como esta, é que nos dará a Paz de que tanto precisamos em momentos como este. Somente isso, nos dará a Paz que excede todo o entendimento e que guarda nossos corações e mentes em Cristo Jesus (Filipenses 4:7).

Deus abençoe,

Tassos Lycurgo