Quem comete suicídio vai para o inferno?

Creio que sempre que falamos sobre suicídio, devemos iniciar por uma afirmação direta: ao cristão, não é correto tirar a vida de outro, nem a sua própria. Tanto o homicídio quanto o suicídio encontram barreira tanto no sexto mandamento da Bíblia, que simplesmente estabelece a proibição “Não matarás” (Êxodo 20:13), quanto no amor (inclusive por si próprio) que deve ser o norte da conduta de todo seguidor de Cristo.

Veja ainda que o princípio que fundamenta o fato de que não podemos tirar a nossa própria vida é o de que, principalmente para nós, cristãos, nossa vida está em total dependência do Senhor e somente a Ele deve caber o momento em que deixaremos esta vida e passaremos para a Eternidade. Devemos permitir que Deus exerça a sua soberania quanto ao tempo da nossa vida e da nossa morte.

Vemos como exemplo positivo a conduta do apostolo Paulo, que  foi rápido em agir contra o suicídio de seu carcereiro. Lucas narra:

o carcereiro acordou e, vendo abertas as portas da prisão, desembainhou sua espada para se matar, porque pensava que os presos tivessem fugido. Mas Paulo gritou: ‘Não faça isso! Estamos todos aqui!’. (Atos 16:27-28).

A confiança em Deus fez com que Paulo superasse as dificuldades para a glória do Senhor, mesmo que possamos dizer que tenha momentaneamente perdido a esperança na própria vida em momentos  de extrema tribulação (2 Coríntios 1:8, por exemplo).

É bem verdade, contudo, que há situações na Bíblia em que suicídios são cometidos, às vezes até por homens reconhecidamente de Deus, mas em nenhum momento as Escrituras tratam tais atos como atos honrosos ou dignos de qualquer glória. A esse respeito, veja os casos de Sansão, que matou a si e aos filisteus (Juízes 16:30), do Rei Saul (1 Samuel 31:4-5), do Rei Zinri (1 Reis 16:18), de Aitofel (2 Samuel 17:23) e o mais famoso dos casos: de Judas (Mateus 27:5), que se matou após ter traído Jesus Cristo.

Suicídio, portanto, é um pecado gravíssimo e nunca é uma saída aceitável, biblicamente falando. Dito isso, contudo, resta a questão de se este pecado é imperdoável, ou seja, de se este pecado exclui ou não automaticamente o cristão do seu direito, conquistado por Cristo, de ir para o Céu após a morte.

De acordo com a Bíblia, todos os pecados (inclusive o do suicídio) são susceptíveis de serem perdoados, à exceção de apenas um: blasfêmia contra o Espírito Santo (em uma atitude constante de rebelião contra o Espírito de Deus), conforme vemos na seguinte passagem:

Por esse motivo eu lhes digo: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada (Mateus 12:31).

A dúvida que sempre aparece aqui em relação à possibilidade de perdão do suicídio por Deus é decorrente do verso bíblico que estabelece que

Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9).

Muitos, com base neste verso, pensam que caso alguém morra sem tempo para confessar os seus pecados, irá para o inferno. Como, no caso do suicídio, este tempo é bem reduzido, já que consiste apenas no curto espaço entre o ato de atentar contra a própria vida e a morte propriamente dita, muitos pensam que o suicida não irá para o Paraíso.

Aqui, amigo, é questão de bem entender o que é salvação. Sem querer me aprofundar muito neste tema, que foge ao escopo da pergunta, vemos que o tema principal do Capítulo 2 de Efésios é o de que a salvação é imerecida, tanto que decorre da graça de Deus. Veja que as Escrituras dizem que

Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2:8-9).

Acrescentemos a isso que não há aqui qualquer conflito com a primeira carta de João (1:9), citada anteriormente, pois ela não se refere à perda de salvação.

Para esclarecer mais ainda, veja que se a pessoa que cometeu suicídio for verdadeiramente cristã, ela não tem a natureza de pecadora, mesmo que possa eventualmente pecar, como o fez com o ato de suicidar-se. A eventualidade do pecado não anula a nossa salvação, pois a recebemos imerecidamente e não por nossas obras.

A eventualidade da conduta não compromete a natureza daquele que exerce essa conduta. A pessoa que eventualmente dirige um caminhão não é considerada caminhoneira, assim como a pessoa que peca eventualmente não pode ser considerada pecadora.

Por outro lado, aqueles que pecam como decorrência de sua natureza, fazem isso como consequência de uma natureza pecadora e estes já estão afastados de Deus. É impossível para o verdadeiro cristão pecar como consequência de sua natureza (Hebreus 12:14), já que pecador não é. Paulo pergunta:

Nós, os que morremos para o pecado, como podemos continuar vivendo nele? (Romanos 6:2)

Dessa maneira que, vemos que se a pessoa está em constante pecado, cristã não é (Mateus 7: 21-23) e, portanto, não é salva, independentemente de se cometeu suicídio ou não.

O que importa é o fato de se o espírito da pessoa é recriado, reunificado com o do Senhor e, portanto, de se ela é salva. Como somente Deus sonda o coração do homem (1 Samuel 16:7), não cabe a nós julgar a natureza de quem, embora em ato deplorável, tenha dado cabo à própria vida, principalmente em casos de doenças tais como a da depressão profunda, esquizofrenia, transtornos bipolares, entre outras, que atacam a capacidade da pessoa pensar claramente.

Em conclusão, vimos que o suicídio não é uma saída aceitável, biblicamente falando, mas que, como todo pecado (à exceção da blasfêmia contra do Espírito Santo), não tem o condão de automaticamente mandar a pessoa para o inferno. Nosso papel como cristãos é o de nos posicionar contra o suicídio, ajudar aqueles que estejam em situação de risco de matarem-se a si mesmos, e jamais julgar os que fizeram isso, pois vemos apenas o exterior, enquanto Deus vê o nosso coração.

Ademais, se algum leitor deste texto está pensando em suicídio, veja que Deus é a sua lâmpada (2 Samuel 22:29) e coloque a sua esperança nele, pois ninguém que espera de Deus fica decepcionado (Salmos 25:3). Procure ajuda dos irmãos e ore ao Senhor, pois o justo passa pelas diversidade, mas, com Deus e no nome de Jesus Cristo, não há de permanecer nelas; isto é,

O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido. O justo passa por muitas adversidades, mas o Senhor o livra de todas (Salmos 34:18-19).

Confie em Deus que, com Ele, vencemos todas as dificuldades para contarmos as glórias do Senhor.

Deus abençoe,

Tassos Lycurgo