A Igreja Católica adota o Big Bang e a Evolução

O atual líder da Igreja Católica, o Papa Francisco, proferiu ontem (27 de outubro de 2014) um discurso na Pontifícia Academia de Ciências [1. A Pontifícia Academia de Ciências é uma academia subordinada ao Vaticano que tem por missão discutir a ciência. Seu membros não necessariamente têm de ser católicos.] que talvez surpreenda muitos fiéis da religião da qual ele é o líder. Segundo o Papa, a Teoria do Big Bang e a Teoria da Evolução não são incompatíveis com o relato da criação.

No que diz diz respeito ao Big Bang, não creio que o Papa tenha dito um absurdo. Realmente, o Big Bang é a primeira das teorias científicas a descreverem que o universo foi criado a partir do nada, exatamente como dizia a Bíblia por séculos.

A questão é saber se o Papa está se comprometendo apenas com este princípio da teoria (o da criação a partir do nada) ou se ele está-se referindo à teoria como um todo. Em outras palavras, o problema é que, ao afirmar isso, o Papa se coloca na situação de responder o seguinte: para o Catolicismo, os seis dias de Gênesis devem ser interpretados como seis dias de 24 horas ou, do contrário, como períodos de bilhões de anos?

Vamos ver o que disse o Papa sobre o Big Bang:

O Big Bang, que hoje temos de ser a origem do mundo, não contradiz a intervenção do criador divino, mas sim a exige. (Papa Francisco)

Se o Papa realmente se referiu ao Big Bang conforme ele é entendido na ciência, o comprometimento é com a criação há pelo menos 14 bilhões de anos, sendo os dias de Gênesis períodos longos nos quais a vida e tudo o mais foi formado.

Uma consequência importante para quem defende o universo de mais de 14 bilhões de anos, conforme parece ser o caso do Papa, é aceitar que já havia muita desordem e morte no mundo antes de que o primeiro homem pecasse. O problema, conforme muitos já se aperceberam, é que o entendimento predominante no Cristianismo é o de que somente pelo pecado é que a morte entra no mundo. Segundo o Papa, este não é o entendimento que deve ser adotado pelos católicos. Devo registrar que alguns cristãos protestantes também pensam dessa forma, embora estejamos aqui falando se uma minoria.

Por outro lado, o Papa disse ainda que crê na evolução. Vejamos o que Ele disse:

Lendo Gênesis imaginamos que Deus é um mago com uma varinha mágica capaz de fazer todas as coisas. Mas isso não acontece. Ele criou a vida e deixou que cada criatura evoluísse de acordo com as leis naturais que deu a cada um. (Papa Francisco)

Bem, não posso imaginar aqui que o Papa queira dizer que Deus não teria a possibilidade de fazer todas as coisas, caso quisesse. Prefiro entender que ele se expressou mal, tendo pretendido dizer na realidade que, segundo o seu magistério, Deus optou por criar a vida e deixar que ela evolua pelas leis naturais.

Mesmo assim, temos algo bastante preocupante. Com base no que foi dito pelo Papa, há duas maneiras de se entender isso. Vejamos.

  1. Microevolução: evolução sem formação de novo tipo de ser vivo. Conforme este entendimento, todos os tipos de vidas teriam sido criadas por Deus. Explico: Deus criou o cachorro, o gato, o peixe, a ave, o ser humano, o macaco, etc. Um tipo não pode evoluir para outro tipo (um peixe não pode evoluir por gerações até se tornar uma ave), embora possa haver evolução dentro do mesmo tipo de animal. Por meio da evolução, o cachorro em várias gerações pode ser tornar ou mesmo criar outra raça de cão, mas todos serão cachorros.
  2. Macroevolução com  criação da vida inicial por Deus: Deus teria criado a vida inicial e tudo o mais teria se desenvolvido segundo as leis da natureza. Segundo este entendimento, peixes podem evoluir para se tornarem aves; ou ainda, o mesmo primata evoluiu para criar o humano e o macaco, por exemplo.

É fácil saber que este segundo entendimento, o da macroevolução, é antibíblico, pois as Escrituras narram claramente que Deus criou todos os animais segundo os seus tipos (ou espécies, dependendo da tradução). Para citar só um exemplo, veja esta passagem abaixo:

E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. (Gênesis 1:21)

Para saber mais sobre a diferença entre macro e microevolução e como uma é compatível com a Bíblia e a outra não é, clique aqui. No que diz respeito ao Papa, espero, sinceramente, que ele não tenha adotado o entendimento da macroevolução.

De qualquer forma, mesmo que nos esforcemos ao máximo para entender as palavras do Papa Francisco de forma mais compatível possível com a Bíblia, uma coisa parece está certa: a Igreja Católica não mais adota o magistério da criação em seis dias de 24 horas cada e, ao que parece, se inclina cada vez mais para a interpretação apenas figurativa do livro de Gênesis. Este posicionamento que ontem expressou o Papa já era adotado por uma corrente minoritária dos cristãos protestantes. A grande novidade é que agora parece ser explicitamente a posição da Igreja Católica.

Por fim, sugiro que leiam o discurso do Papa (em italiano – creio que em breve traduzirão) ou ainda, se quiserem, vejam a publicação (em inglês) referente à sessão de 24-28 de outubro de 2014 da Pontifícia Academia de Ciências, em que o líder da igreja católica proferiu o seu discurso.

Deus abençoe,

Tassos Lycurgo