“Eu perdoo mas não esqueço!”

Você alguma vez já ouviu alguém pronunciar esta frase? Eu já ouvi, várias vezes. E confesso que ela também fez parte do meu vocabulário por algum tempo, até o dia em que realmente pude entender o verdadeiro significado do perdão e de tudo o que ele representa. E é sobre isso que trataremos em nosso texto de hoje.

A primeira coisa que devemos entender é que o perdão, ao contrário do que muitos pensam, não é um sentimento, mas uma decisão que gera uma atitude. O perdão é uma escolha, independente da situação e também não tem qualquer relação com méritos, ou seja, não se perdoa alguém porque merece perdão ou não. Perdoa-se para ser livre, pois o exercício do perdão, embora não pareça, é uma libertação maior para o perdoador do que para o perdoado.

Há uma frase que, embora de autoria controversa, expressa muito bem o que representa a falta de perdão:

Guardar mágoa é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.

Eu gosto muito dessa frase pois acredito que ela representa com perfeição o que a mágoa ou a falta de perdão produz em nós mesmos. Apesar do ressentimento ser direcionado à outra pessoa, ele envenena o nosso próprio corpo, mente e coração. A mágoa por algo ocorrido no passado consome o ofendido por dentro, retirando a sua paz de espírito, mexendo em sua saúde e muitas vezes chega até a refletir em relacionamentos com outras pessoas, mas ela deixa ileso aquele que cometeu tão terrível ofensa.

A falta de perdão é uma armadilha que a Palavra de Deus nos ensina a evitar. Nós não podemos evitar de sofrermos ofensas, mas o Senhor nos ensina que evitamos a ferrugem do ressentimento quando andamos em amor.

Jesus quando inquirido sobre qual era o maior dos mandamentos, respondeu:

Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.  (Marcos 12:30-31)

Deus é amor (1João 4:16) e toda a Lei de Deus se resume em amar. O apóstolo Paulo no capítulo 13 de sua Primeira Epístola aos Coríntios nos diz que mesmo a pessoa mais sábia, caridosa e cheia do poder de Deus, se não tiver amor, é apenas “um sino que tine”, ou seja, é apenas barulho, mas sem essência.

A medida de Deus é o amor, não há outra. O nosso grau de espiritualidade e intimidade com Deus é diretamente proporcional à nossa caminhada em amor com o nosso próximo.

Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro. Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão. (1 João 4:19-21)

Como foi dito anteriormente, o perdão é uma libertação para o ofendido e o liberta da armadilha  do ressentimento que pode causar, entre outras coisas, doenças; mas o perdão, no contexto cristão, é muito mais do que isso, é um ato de expressão do amor do tipo de Deus. Amor este que nos amou e perdoou quando não merecíamos amor e perdão.

Pedro questionou Jesus sobre quantas vezes deveria perdoar seu irmão, pois assim como muitos de nós, ele não conseguia compreender onde estava a justiça em se perdoar sempre. Foi então que Jesus, por meio de uma parábola, lhe explicou o porquê. Vejamos:

Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete. 

Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos; E, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos; E, não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse. Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Então o Senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves. Então o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Ele, porém, não quis, antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. Vendo, pois, os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito, e foram declarar ao seu senhor tudo o que se passara. Então o seu senhor, chamando-o à sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste. Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti? E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas. (Mateus 18:21-35)

O perdão é devolver a outra pessoa aquilo que Deus um dia lhe deu. Deus nos amou primeiro, quando não merecíamos perdão. E para alguém que possui a natureza de Deus (2 Pedro 1:4), que é embaixador do Reino de Deus aqui na terra (2 Coríntios 5:20) e que tem o amor Dele derramado em seu coração pelo Espírito Santo (Romanos 5:5), negar perdão a alguém representa negar àquela pessoa o próprio perdão que lhe está disponível em Jesus Cristo. O cristão deve ser aquele que aponta o caminho para o perdão, e não aquele que impede o seu alcance.

Deus nos fala em sua palavra que dos nossos pecados, ou seja, de tudo aquilo que o ofendia e que nos mantinha longe Dele, não se lembra mais (Isaías 43:25; Hebreus 8:12) e que os joga nas profundezas do mar (Miquéias 7:19), então porque iremos nós remoer, alimentar e nos apegar às ofensas que outras pessoas nos fizeram se compartilhamos da mesma natureza de Deus?

Amados, se somos cristãos, se somos como Cristo, perdoamos e esquecemos. E daquela ofensa não deveremos mais nos lembrar. Ao agir desta forma é impossível sermos pegos pela armadilha da mágoa ou sofrer a ferrugem do ressentimento, mas andaremos em saúde no corpo e em todos os nossos relacionamentos, desfrutando da liberdade que o amor de Deus nos proporciona.

Sejam abençoados,

Camila Lycurgo