Como a Bíblia foi formada? A Bíblia Católica é diferente da Protestante? (Parte II)

O nosso bate-papo de hoje é uma continuação da Parte I, publicada ontem, em que analisamos as diferenças entre o Antigo Testamento católico e o protestante, principalmente no que toca aos livros ditos apócrifos.

Vimos que, com base no processo histórico de aceitação desses livros, eles não deveriam ser aceitos como inspirados por Deus, tal como o faz a igreja católica. O argumento que apresentaremos agora será o de que esses livros contêm erros de naturezas diversas, o que demonstra mais uma vez que não devem mesmo ser entendidos como produto da inspiração divina, que não erra.

Ao final deste post, falaremos também do Novo Testamento, mostrando como se deu a sua formação e se há de fato alguma diferença entre a versão protestante e a católica.

Se você ainda não leu o texto publicado ontem, aconselho a lê-lo primeiro (clique aqui) para depois continuar daqui, pois os dois têm uma sequência lógica que seria bom que fosse respeitada, que que você tivesse o melhor entendimento possível.

  • Erros dos Apócrifos 

Os trechos que a Bíblia católica contém a mais do que a protestante compreendem os livros apócrifos, que são os de Tobias, Judite, Primeiro Macabeus, Segundo Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, e Baruque. Fora esses livros, a Bíblia católica também traz algumas adições aos livros de Ester e Daniel, mais especificamente: Ester 10:4 – 16:22, e Daniel 13.

Vamos analisar agora alguns dos erros que eles comentem, tanto do ponto de vista histórico e geográfico quanto teológico, o que demonstra que jamais poderiam ser obra da inspiração de Deus.

Além do fato de que as Escrituras judaicas em nenhum momento incluiu qualquer desses livros como inspirados por Deus, alguns outros argumentos são importantes para reforçar a ideia de que os livros apócrifos não devem mesmo estar na Bíblia.

Um desses argumentos é o de que alguns desses livros trazem erros grosseiros da perspectiva histórica e geográfica, tal como vemos no livro de Judite:

Ora, no décimo segundo ano de seu reinado, Nabucodonosor, que reinava sobre os assírios em Nínive, a grande cidade, fez guerra a Arfaxad, e venceu-o. (Judite 1:5)

Conforme sobemos historicamente, Nabucodonosor foi rei da Babilônia e não da Assíria. Isso é um tipo de erro que simplesmente inexiste em qualquer dos 66 livros verdadeiramente inspirados por Deus.

Certamente de forma muito mais grave do que ocorre no caso que vimos acima, alguns dos livros apócrifos trazem elementos que ferem a centralidade do Cristianismo, tal como a doutrina de que o sacrifício de Cristo na cruz não foi suficiente para a nossa salvação.

A esse respeito, veja os seguintes versos do livro de Tobias:

porque a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma de cair nas trevas. (Tobias 4:11)

Ou ainda:

porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna; (Tobias 12:9)

A esmola (ou, se preferir, a caridade) é certamente um ato valioso, mas nem de perto tem o condão de nos livrar do pecado. De acordo com a Bíblia (1 João 1:7), apenas o sangue de Jesus, o seu sacrifício na cruz, tem o condão de nos lavar de todo pecado.

Embora haja ainda há outras passagens dos livros apócrifos que atentam contra o Cristianismo, talvez seja bom que pulemos logo para outro tipo de argumento contra os apócrifos: outro fato que muitos consideram importante quando analisam tais livros é o de que, embora Jesus tenha feito referência a muitos livros do que hoje chamamos de Antigo Testamento, em nenhum momento ele se referiu a qualquer trecho dos livros apócrifos.

Enfim, será que eles devem ser totalmente desconsiderados?

Tais livros podem (e mesmo devem) ser considerados como fontes de estudo, mas nunca como revelação de Deus aos homens na Terra.

Para concluir o nosso breve estudo sobre a diferença entre as Bíblias católica e protestante, resta-nos agora apenas analisar a questão do Novo Testamento.

  • O Novo Testamento

No que diz respeito ao Novo Testamento, desde o início os Cristãos de forma unânime aceitaram os Evangelhos, o livro de Atos, as cartas de Paulo e a Primeira Epístola de João como livros inspirados.

Embora o primeiro autor a listar os 27 livros do Novo Testamento tenha sido Anastásio, e isso apenas no ano de 367 d.C., o critério para estabelecer quais livros tinham autoridade para compor o Novo Testamento já se encontra em escritos do Século I.

A ideia era a de que os autores dos livros tinham de satisfazer um dos critérios:

  1. ter sido testemunhas oculares do Cristo ressurreto; ou
  2. ter sido estreitamente relacionados a tais testemunhas.

Tais eram os que por certo mais fidedignamente poderiam falar sobre as verdades de Cristo.

Com base nesses critérios, já no Século II, pelo menos 19 livros do Novo Testamento já encontravam unanimidade no reconhecimento de que eram inspirados.

Os últimos livros a serem definitivamente considerados como integrantes do Novo Testamento foram as cartas de Pedro, a Segunda e Terceira cartas de João e as cartas de Tiago e Judas, o que aconteceu no Séc. IV.

  • Conclusão

O Novo Testamento na Bíblia Protestante e na Católica são idênticos, apenas trazendo pequenas diferenças de tradução, a depender das versões que se comparem. A  grande diferença está mesmo no Antigo Testamento.

Em outras palavras, o conteúdo da Bíblia protestante está todo na católica. O inverso é que não é verdadeiro.

Dessa forma, se você tem apenas a Bíblia católica, sugiro que a leia excetuando os livros apócrifos. Ou, se preferir, os inclua em sua leitura, mas sabendo que, no que diz respeito aos sete livros apócrifos, não creio que haja bons argumentos para considerá-los como inspirados por Deus.

Independentemente de tudo isso, o que impressiona mesmo a humanidade é o fato de que os 66 livros da Bíblia que estão em ambas as versões católica e protestante foram escritos por cerca de 40 autores em um período de 1.500 anos, e que eles apresentam absoluta coerência entre si, algo que nenhum outro texto produzido na história das Civilizações conseguiu nem de perto reproduzir.

Isso, claro, sem falar nos elementos da confiabilidade das Escrituras e do caráter profético inigualáveis em relação a qualquer outra obra da humanidade.

Por essas e outras razões mais é que se sabe que aqueles 66 livros somente poderiam ter sido obra de inspiração divina.

Caso haja ainda qualquer dúvida sobre este assunto, por favor não hesite em colocá-la logo abaixo, nos comentários a esta postagem.

Deus abençoe.

Tassos Lycurgo