A morte de uma criancinha

Quando tão grande dor, como a morte de uma criança, se abate sobre uma família, poucos são aqueles que encontram ousadia para tentar consolar os que passam por tão grande perda. Como procurar achar palavras para aliviar os corações daqueles que enfrentam aquela que muitos entendem se tratar da maior tragédia que possa acontecer a uma família? Realmente, para aqueles que não possuem um conhecimento sólido sobre a Bíblia e sobre quem Deus é, faltam palavras. Entretanto, a minha intenção com este texto de hoje é tentar preencher essa lacuna.

O dia 12 de Março de 2005 foi o dia mais difícil de toda a minha vida, o dia em que minha filhinha, Lissa Camila, foi para o céu. Poucas foram as pessoas que tiveram coragem de pronunciar algo que elas achassem que poderia nos causar algum tipo de consolo. Muitos vinham com opiniões e levantavam teorias na tentativa de nos trazer algum conforto, o que, na realidade, só trazia mais dor.

Naquela época eu era muito novinha na fé e não tinha o conhecimento bíblico que tenho hoje, por isso sofri bastante com opiniões e sugestões desastradas de pessoas com excelentes intenções, mas que por falta de conhecimento, a tentativa de consolo delas na realidade trazia-me mais sofrimento.

Ao enfrentar tal situação, a primeira coisa que devemos ter em mente é que Deus é bom:

Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. (Tiago 1:17)

Deus é bom e tudo o que é bom vem Dele. A bondade faz parte da natureza de Deus e isso Nele é imutável. Ou seja, não há como Deus ser bom em determinados momentos e em outros Ele ser mau. Deus é sempre bom e Ele nos ama. (1 João 4:16)

E a segunda coisa que devemos deixar bastante clara é que Deus ama muito as crianças:

Mas Jesus chamou a si as crianças e disse: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele. (Lucas 18:16-17)

As crianças não apenas são muito amadas por Deus, como também Jesus deixa claro que o Reino de Deus pertence a elas, e as lança como referencial para os adultos fazerem parte do Reino. As crianças são exemplos de pureza, e com a sinceridade que lhes é peculiar em atos e em palavras, Deus se agrada delas.

Quando uma criança morre Deus continua se agradando dela, continua a amá-la e continua a desejá-la perto Dele.  Nada pode nos separar do amor de Deus, nem a morte (Romanos 8:38-39)! Quando uma criancinha falece, ela passa a habitar na glória com o nosso Pai, desfrutando de um gozo eterno e de uma completude de vida que nada neste mundo é capaz de oferecer.

O rei Davi teve de enfrentar a morte de três de seus filhos enquanto estava vivo, entre eles uma criança. Diante da morte dos seus dois filhos adultos: Amnom e Absalão, o rei Davi teve basicamente a mesma reação de desespero após notícia de suas mortes.

Ao saber da morte de Amnom, a Bíblia nos diz que “o rei e todos os seus conselheiros choraram muito […] E o rei Davi pranteava por seu filho todos os dias” (2 Samuel 13:36-37). Quando ficou sabendo da morte de Absalão, “o rei, abalado, subiu ao quarto que ficava por cima da porta e chorou. Foi subindo e clamando: “Ah Absalão, meu filho Absalão! Meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera ter morrido em seu lugar! Ah Absalão, meu filho, meu filho!” (2 Samuel 18:33).

Porém, a reação do rei Davi diante da morte de seu filho ainda criança foi bem diferente:

Então Davi levantou-se do chão, lavou-se, perfumou-se e trocou de roupa. Depois entrou no santuário do Senhor e adorou. E voltando ao palácio, pediu que lhe preparassem uma refeição e comeu.

Seus conselheiros lhe perguntaram: “Por que ages assim? Enquanto a criança estava viva, jejuaste e choraste; mas, agora que a criança está morta, te levantas e comes! “

Ele respondeu: “Enquanto a criança ainda estava viva, jejuei e chorei. Eu pensava: ‘Quem sabe? Talvez o Senhor tenha misericórdia de mim e deixe a criança viver’.

Mas agora que ela morreu, por que deveria jejuar? Poderia eu trazê-la de volta à vida? Eu irei até ela, mas ela não voltará para mim. (2 Samuel 12:20-23)

A calma e serenidade de Davi diante da morte da criança devia-se à certeza do reencontro, de que ele veria a criança novamente, certeza esta que não estava presente na ocasião da morte de seus outros dois filhos.

Ao Cristão, ao filho de Deus, pertence a eternidade com Cristo (Daniel 7:18, 1 João 5:11) e devemos andar nessa certeza. Não devemos temer a morte, ela é apenas uma passagem para a vida eterna.

Segundo a Palavra de Deus, em João 1:12, os filhos de Deus e herdeiros da eternidade com Cristo são todos aqueles que receberam Jesus, e creram em seu nome. Diz ainda em Romanos 10:9 que “se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo.”

Diante da morte de uma criança, alguns podem refletir o quão jovem era aquela vida e o tanto que ela deixou de viver, mas lembremos que, diante da eternidade, a nossa vida não passa de um minúsculo pontinho feito com lápis numa cartolina de tamanho infinito. O que são oitenta ou noventa anos diante da eternidade?

Ao enfrentar a morte de uma criança, devemos agir com a mesma serenidade que Davi agiu ao se deparar com essa situação, guardando a certeza de que Deus é bom (Lucas 18:19) e que as crianças são possuidoras do Reino de Deus. Para o cristão não há desespero, pois é viva a confiança do reencontro na eternidade com Cristo, que é uma das heranças dos filhos de Deus.

Nós cristãos, ao nos despedirmos de uma criancinha ou de uma amado irmão que morreu no Senhor, lembremos que aquilo não se trata de um “adeus”, mas de apenas um “até breve”.

Sejam abençoados,

Camila Lycurgo